Etanol avança na Índia e cria tensão na cadeia agrícola
Expansão do biocombustível altera plantio, pressiona preços e cria disputa entre energia, ração e segurança alimentar no país

A Índia atingiu a meta de 20% de mistura de etanol na gasolina (E20) em junho de 2025, cinco meses antes do cronograma oficial, segundo relatório do USDA. Em janeiro de 2026, a taxa média nacional já superava 20%, com mais de 10,4 bilhões de litros de etanol incorporados à gasolina.
O avanço foi sustentado pela diversificação das matérias-primas para produção do biocombustível, que deixou de depender majoritariamente da cana-de-açúcar e passou a utilizar grãos em larga escala. Atualmente, cerca de metade do etanol contratado tem origem em milho (46%) e arroz proveniente dos estoques públicos da Food Corporation of India (FCI) (15%).
Transição alterou a dinâmica do mercado agrícola
Para estimular o plantio de milho, o governo elevou o preço de referência do etanol produzido a partir do cereal e aumentou o preço mínimo de suporte (MSP). A resposta foi rápida: a área cultivada e a produção de milho cresceram 12% em 2024 e 2025. Ao mesmo tempo, houve redução de 10% na área destinada a oleaginosas.
Com a expansão da oferta, os preços do milho recuaram de forma acentuada, em alguns momentos para níveis próximos à metade do MSP. O excesso de oferta e a expectativa de importações pressionaram ainda mais o mercado. Enquanto as usinas de etanol mantiveram margens positivas, produtores rurais enfrentaram queda de renda, desencadeando protestos em estados como Madhya Pradesh, Uttar Pradesh e Maharashtra.
A mudança na matriz de matérias-primas também afeta o abastecimento interno. Historicamente, cerca de 70% do milho indiano era destinado à ração animal. Com a maior destinação ao etanol, o setor de nutrição animal passou a enfrentar restrições de oferta e maior volatilidade de preços. Esse redirecionamento cria competição direta entre os usos alimentar e energético do cereal.
Governo utilizou estoques públicos excentes
No caso do arroz, o governo passou a utilizar estoques públicos excedentes como insumo para etanol, o que funciona como instrumento de gestão de estoques, mas depende da disponibilidade anual e de condições climáticas favoráveis. Eventos de seca recentes já haviam reduzido a produção de cana e arroz, forçando mudanças sucessivas na estratégia de suprimento.
Apesar do forte crescimento da capacidade instalada, o setor opera atualmente entre 40% e 45% de utilização, devido à volatilidade no fornecimento de matéria-prima e entraves regulatórios. A ausência de metas claras de mistura além do E20 gera incerteza quanto à expansão futura da demanda.
O principal desafio da Índia passa a ser o equilíbrio entre três vetores: segurança energética, estabilidade de renda agrícola e abastecimento alimentar. A expansão do etanol a partir de cana e grãos altera decisões de plantio, desloca área de culturas como oleaginosas e leguminosas e pode ampliar a necessidade de importações caso a produção doméstica não acompanhe a demanda interna por alimentos e ração.
Referências:India Biofuels Market – Opportunities and Challenges in a Changing Energy and Agricultural Landscape
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